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LET IT BLEED!
José
Carlos Neves
A curiosidade pelo mórbido é intrínseca ao ser humano, e por isto os relatos de guerra sempre despertam interesse. Como fui talvez o único brazuca a lutar na guerra do Vietnã, a minha estória deverá, no mínimo, te pegar pelo pé.
A guerra suscita questionamentos profundos sobre o sentido da vida, morte e moral que exigem respostas imediatas, embora nós sempre tentemos saneá-la com aventuras românticas e propaganda paranóica na esperança de que assim a dotaremos de um sabor, de um gosto com o qual possamos conviver.
Mas para quem esteve numa frente de batalha, todas essas abstrações políticas do debate acadêmico e da mídia são bosta diante da questão concreta e crucial da sobrevivência. Sim, a sobrevivência, a única e verdadeira glória numa guerra...
Foda-se a Convenção de Genebra, que tentava tratar guerras como questão de legislação.Aqueles filhos da puta tentaram reduzir uma experiência essencialmente imoral numa questão de leis, de legalidade.
Bem, tudo isto são divagações pseudo-filosóficas, se é que um verme possa tê-las. No início de tudo, a gente nunca pensa assim. Somos cegados pela inocência. Mesmo com todo o meu terror de me alistar – eu tinha certeza de que seria a última pessoa capaz de sobreviver numa guerra – não pude resistir àquele fascínio sedutor que a coisa emanava. Afinal, guerras eram acontecimentos nos quais se descobria coisas. E também, claro!, era uma forma de me tornar um “legal” na América, de garantir a minha “green card”. Ia mal na escola, estava fodido mesmo...Sei lá. São muitas as desculpas que tento me dar. Tinha uns caras cujos pais diziam “Vai, você vai se tornar um homem lá”. Sonofabitchies... provavelmente derramariam mais lágrimas se tivessem de mandar os seus poodles de estimação.
Sei é que o babaca aqui foi lá e se alistou. E se ferrou. Todo o cabelo vai embora no primeiro dia e imediatamente tudo se torna primitivo no “bootcamp”. Ninguém fala com você. Todo mundo grita. Você se sente um monte de merda. Todo mundo só querendo te foder. Os grandões são automaticamente nomeados os líderes. Ou se auto-nomeiam. Vão ser os líderes dos esquadrões, pois são os únicos que podem intimidar você a fazer alguma coisa. Porra! A força bruta é mesmo uma linguagem universal.
Há a conhecida e irrevogável separação de classes de todo o sempre, com os caras das cidades grandes e da classe média se ajustando automaticamente. Já os pobres e as minorias, como negros e mestiços, além dos estrangeiros cucarachas, não se enquadram. Tendem a formar guetos. Se não fala inglês direito então, tá fodido...
Sei é que no campo de preparação é tudo uma questão de “Sim,Senhor”,”Não, Senhor”. Não há talvez nem senões. Você nunca acorda como uma pessoa normal. Você tem de pular da cama, vestir-se e calçar os batibutes em questão de segundos. Às vezes, voltar atrás e repetir tudo. Depois é formar, marchar, fazer flexões de braço e, quando cometer um deslize, há sempre um dos grandões na sua frente, cara-a-cara, “ajudando” você a “memorizar” dezenas de ordens gerais. Nem que seja pelo bafo deles, você nunca mais se esquece. Tivemos até um cara que bebeu uma lata inteira de Brasso para se livrar daquele inferno. Eles o mandaram para tratamento psiquiátrico.
No final do processo você se sente a pior coisa que já rastejou sobre a terra. Para logo esquecer tudo quando, na cerimônia de graduação, ao ser chamado de “um marine”, as lágrimas escorrendo de suas retinas fixadas na “bright stars and red stripes” flamulante, você estar inteiramente doutrinado.
Depois de mais um período, desta vez numa base havaiana – alguns caras de 17 anos tiveram de ficar por lá até atingir a maioridade – você está a bordo de um C-104 voando para algum lugar ao sul do Mar da China. Um auto-falante enche o ar carregado de fumaça de cigarro anunciando: “Atenção, este é o seu comando falando. Esteja alerta para o seu destino. Da Nang, República do Vietnã”.
Nossa chegada foi em Cam Ranh Bay. É pular do avião e sentir o calor úmido e pegajoso, temperado pelo fedor de urina velha da base aérea, que quase lhe sufoca. Um velho ônibus escolar, mostrando o amarelo original debaixo dos descascados da pintura verde-oliva fosca, sem insígnias, estava nos esperando. Tão logo embarquei notei as janelas cobertas por tela de arame. “What the hell?” Pra quê era aquilo? “Os gooks, cara. Os gooks”, foi a única e rapidamente compreendida resposta. Os “gansos”, aqueles velhinhos alquebrados, vestidos de pijamas escuros, cabeças protegidas por curiosos chapéus cônicos de palha, calçando chinelas, cultivavam o mau hábito de jogar granadas pelas janelas dos ônibus militares.Estávamos ali, na maior instalação militar do mundo, meio a máquinas de coca-cola e caças supersônicos e tínhamos de nos proteger de velhinhos de pijama? Na hora não cheguei a essa conclusão ainda excitado pelo senso de novidade, mas aos poucos algo soprava no mais fundo do meu inconsciente que ali tinha algo errado, muito errado.
Depois do tempo suficiente para você concluir que ninguém ali sabe realmente o quê está fazendo ou para quê, você é engajado nas operações de “procurar e destruir”. Os helicópteros te apanham ao raiar do sol, te levam e te largam no meio do mato. E você passa o dia inteiro andando, lutando contra o calor, o cansaço e quase sempre, a monotonia. De vez em quando há algum “combate”. Você escuta neguinho gritando “Atire. Atire”, mas nem sabe em quem ou no quê está atirando no meio daquelas árvores há mais de cem metros. Quando não se vê nada, o medo não é tão grande. Às vezes ficávamos tão putos que atirávamos era contra os cocos. Não usávamos luvas e a mãos eram feridas vivas. Todo dia cedo tinha de espremer pus delas. Mas logo tudo se adapta.
Teve casos piores. Um carinha do Kentucky, por exemplo, chegou lá com toda a pompa, dizendo que estava pronto para matar, para exterminar os “bad gays”. Tinha só dezoito anos e completados durante a travessia oceânica. Já no dia em que chegou, a sua base sofreu um ataque noturno dos “VCs” e ele morreu com estilhaços de morteiro fincados na coluna vertebral. Chegou num dia com a farda verde oliva novinha. Voltou no outro, vestido apenas pó um saco preto de plástico.
Aos poucos a morte, o cheiro de napalm, de corpos calcinados, de pólvora e cordite, tudo te impregna total e indelevelmente.
Na falta de alvos visíveis, a gente costumava treinar tiro em cadáveres de vietcongues. Chutávamos-lhes as cabeças pequenas até os miolos saltarem fora. Aqueles “fdps” eram os culpados por estarmos ali. O “sarja”, um cara durão com forte sotaque da Geórgia, dizia: “Você tem que ver estes cadáveres como se eles ainda pudessem serem mortos. Então, você os mata duas vezes”.
Às vezes enfileirávamos os corpos para serem filmados e fotografados – como o caçadores de safáris e seus troféus – e depois simplesmente tocávamos fogo, após a contagem. Era empilhar tudo numa vala, derramar óleo diesel e com o zippo cromado do “ sarja “, fazer a fogueira. Simples assim. No meio da floresta.
Tinha uns caras que iam mais longe como “caçadores”: carregavam orelhas que cortavam dos cadáveres, num colar de contas macabras. Éramos até mesmo encorajados nessas amputações, às vezes narizes, pênis e, nas mulheres, os seios.
Mas os VCs não deixavam por menos, não. A luta na selva começou a ficar mais sangrenta, tete-a-tete. Não tinha aquele negócio de tanques de guerra passando por cima de tudo como dinossauros, como se via nos filmes de John Wayne. Era casa a casa, homem a homem. Os chinas atiravam na gente com seus Aks-47 soviéticos, de matraquear inigualável, e até com os nossos mal correspondentes M-16, que nos roubavam. Depois escondiam as armas entre as paredes duplas de barro e palha de seus casebres. A gente as invadia e eles choravam: “Me no VC. Me no VC. We no know VC!”. E tínhamos de por tudo a baixo, ou encostar o cano da 45 na cabeça magra de algum deles, para os obrigar a abrir o bico.
Na verdade comecei a gostar daquilo. De matar. De fazer o que me desse na veneta. Era como se fosse deus. As únicas mortes que nos afetavam, pelo menos à maior parte de nós, eram a dos “nossos”. Um GI era diferente, era um americano, era uma morte real, perigosamente próxima. Aí, a sanha para matar se acirrava, parece que tinha mais justificativa, e partíamos para as “procurar e destruir” determinados a cumprir o que fôramos treinados para fazer.
No início não podíamos atirar sem permissão. Quando víamos algo na selva, era preciso reportar ao tenente, que tinha o rádio. Ele se comunicava com o QG e eles pediam para esperar pois, por sua vez, tinham de contatar o S2 – oficial de inteligência, a nível de batalhão – e este com o G3 – oficial conselheiro tático – no comando. Era muito “burrocracia”. E nós, os babacas, às vezes ficávamos ali assistindo impotentes à fuga dos gooks. Logo, logo não ligávamos para porra nenhuma mais e atirávamos sem permissão mesmo. Às vezes, no próprio rádio, para alegarmos depois a impossibilidade de comunicação.
Enfim, matar era o mais fácil que fazíamos. O difícil mesmo, o objetivo mesmo, era sobreviver, como eu disse no princípio. Era não morrer. Era suar 24 horas por dia, assistindo carinhas morrer estupidamente ao seu lado de ataque cardíaco, o que nem os tabletes de sal que recebíamos para evitar a desidratação, conseguia impedir.Era não ter comida decente. Não dormir direito. Isto era a porra da guerra.
Chego a lembrar-me do 20 de julho de 69, quando numa noite de descanso da nossa patrulha, com o céu claro de estrelas, ouvimos pelo rádio a cobertura da chegada do homem à Lua. “Um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade”, dizia pomposo o astronauta não-sei-oquê-Armstrong, numa frase de efeito. “É seu filho da puta – pensei – vem dar um saltinho deste aqui no meio da selva dos charlies comigo, só por um dia”.
A rotina era fodida. Dia sim, dia não, seguir caminhando em formação delta, checando ponto a ponto, sob a orientação da Inteligência. Muitas vezes uma explosão denunciava que alguém tinha perdido o pé ou a perna inteira, quando não a vida, numa booby-trap, as armadilhas dos chinas. O helicóptero vinha e levava o mutilado “Quando esta merda terminar “ – eu comentava – “muito neguinho vai estar andando por aí sem pé”.
Era foda não ver o inimigo na mata. Raramente os víamos. Ao seu menor sinal era se jogar no chão e atirar com os M-16 acima da cabeça. Depois, nas raras ocasiões em que dava certo, era procurar e contar os corpos – na maioria dessas vezes, encontrávamos mesmo era pedaços de carne, restos de cabelo e muito, muito sangue, tão vermelho quanto o nosso. Sempre que podiam os gansos não deixavam corpos dos seus para trás. Ali, no meio da selva, até os cadáveres eram fantasmas.
Tinha um buddy do Kansas, Bobby “Pencilneck”, que sempre me alertava para não entrar em nenhum portão aberto nos casebres de adobe da vila. Sempre checar antes. Um dia ele mesmo se esqueceu de sua recomendação e uma carga de mina explodiu seu traseiro, espalhando pedaços de tecido e merda para todo o lado. O cara estava ali, na minha frente, gritando em choque “Estou voltando para casa. Estou voltando para o mundo”. Com ele no colo, cobertos de fuligem e sangue, eu não sabia se chorava ou gritava por ajuda. O enfermeiro, usando rolos e mais rolos de bandagem, teve de transformar o cara numa verdadeira múmia para que ele pudesse ser recolhido pelo helicóptero. O coitado perdeu uma perna, todo o rabo e sua cara ficou uma merda só.” E minha moto, cadê ela ? Estou voltando pra casa”, era tudo o que o desgraçado conseguia balbuciar, antes da dose cavalar de morfina fazer efeito.
No outro dia, ele morreu.
Ao recolhermos suas coisas, o cantil você podia chacoalhar e escutar os estilhaços lá dentro. Dos furos escorria água tingida de vermelho. Não conseguimos encontrar nem o capacete, nem o fuzil e o cinto de munição estava partido em pedaços.
Mas os chinas também tinham os seus cabras-machos, os snipers, franco-atiradores. Tinham uns tão bons que acertavam na mosca – nós – num raio de quinhentos metros. Acertar nos GIs era seu “pão-com-manteiga”, agradava a Ho Chi Minh.O engraçado é que haviam uns tão ruins também que nós não os molestávamos, para que não fossem substituídos por um dos bons.
Nem tudo era só inferno, é verdade. Havia os dias de folga, os nossos “R&R” , descanso e recreação, que eram divertidos para caralho.Cada vez que voltávamos de uma operação, tínhamos um dia “off”, no qual nos liberavam todo o bife, cerveja, soda e até mesmo a marijuana que pudéssemos consumir. Promovíamos verdadeiras farras, com os caras dançando com seus fuzis, ao som dos Beatles, Simon & Garfunkel...Era muito louco,cara.
Às vezes recebíamos até permissão para ir de jipe às vilas amigáveis, as PXs, tomar umas cervejas e sonhar em por as mãos nos peitões e bundinhas das enfermeiras da Cruz Vermelha.Mas não eram para o nosso bico. Somente os coronéis e os tenentes eram brindados com esse verdadeiro luxo.
Naquelas ocasiões, só jogar conversa fora, bater papo à toa, livres da permanente tensão, já era o paraíso. Chegávamos até a sentir o “gosto” da folga, como o gosto de um brigadeiro da infância...
Um dia estava papeando com um sargento na minha barraca e, olhando sobre o meu ombro, para trás, notei de relance um vulto humano de olhar vazio, e senti um calafrio, pois não havia mais ninguém ali, além de nós dois. Fixei as vistas direito e só então me reconheci no pequeno pedaço de espelho sem moldura que meu parceiro de barraca havia colocado sobre um caixote para fazer a barba. Tive de forçar um sorriso para acreditar que aquele reflexo era meu mesmo. Já estava igualzinho aos outros de olhar também vazio que encontrei ali quando cheguei.
Depois de tudo o que a gente via e vivia ali, de toda aquela sujeira, todas aquelas mentira, era impossível não mudarmos.Cara, tinha uma revista oficial do Exército, a Stars and Stripes, que devia se chamar Lies and Lies, tal a enxurrada de falsidades que publicavam, sempre minimizando as nossas perdas e exagerando as do inimigo.
Eu já era capaz de deixar um china agonizante clamando por morte, no meio da selva, só para sentir o prazer de saber que ele morreria ali, aos pouquinhos, de hemorragia. Eram durões, aqueles motherfuckers. Teve um grupo deles, dentro de um túnel, que resistiu a tudo que fizemos para expulsa-los. Eram granadas e mais granadas, acompanhadas de centenas de disparos..Entornamos mesmo o caldo em cima deles, mas quando dávamos uma trégua, escutávamos os tiros solitários de seus Aks, debochando de nós, cientificando-nos que estavam ali firmes, prontos para outra. Nesta, eu quase pego corte-marcial, ao me recusar a dar mais um tiro se quer naqueles fantasmas. Porra! Eles ganharam o direito de viver. Fiquei sabendo mais tarde que uma carga de napalm calcinou todos eles no oco do chão.
Com o tempo aprendi algumas poucas palavras vietcongues e dava para compreender o que eles gritavam ao agonizar nos estertores finais. Chamavam por sua mãe, pela mulher, filhos... O mesmo que nós também gritávamos. Que porra de guerra era aquela?
E a competição entre os oficiais? Muitas vezes um capitão almejando promoção a major, ficava exasperado ao receberem a contagem de corpos inimigos dos batalhões comandados por outros tenentes concorrentes.
Lembro-me de uma véspera de Natal, quando recebemos pelo correio pacotes de casa contendo doces, chocolates, bolos, fotografias e outros presentes. Mas antes de abri-los, fomos obrigados a sair para mais uma das malditas patrulhas na selva.Dava vontade de acertar um oficial daqueles, no “fogo amigo”, como cansava de acontecer também. Naquela vez, especificamente, o soldado Beck, um garoto texano cheio de sardas, doido para ver o que lhe haviam mandado from home,“do mundo “ , foi ferido por estilhaços de morteiro numa emboscada. No Natal ele não pôde abrir seu pacote sozinho pois não tinha mais braços.
A única forma de escapar daquele tempo e lugar era “viajar” no embalo do haxixe misturado cerveja. Ficávamos então ainda mais sedentos do sangue dos amarelos.
Depois daquele mesmo Natal, voltando de uma das PXs, já bastante altos, o motorista do jipe disse de repente: “Aposta quanto que sou capaz de passar por cima daquela velha na beira da estrada?” A velha, com seu chapéu de palha em cone, verdadeira sombrinha sobre a cabeça, a coluna envergada pelo peso da vara de bambu apoiada nos ombros, com cabaças de água em cada ponta num arremedo de equilíbrio, nem mesmo gritou quando o pára-choque do jipe a atingiu pelos flancos e a projetou uns 8 metros adiante. Aí, bateu uma espécie de remorso e chegamos a pedir um helicóptero médico para recolher a “vítima de atropelamento”, pois inacreditavelmente, ela ainda estava viva. Ficamos sabendo depois que os caras do helicóptero a jogaram na mata, lá do céu.
Mas os chinas davam o seu troco e sabiam ser até mesmo mais cruéis. Numa das procurar-e-destruir, encontramos uma vila com um surto grave de varicela. Nossos enfermeiros vacinaram todas as crianças sul-vietnamitas, mesmo sob os olhares desconfiados e ignorantes de seus pobres pais camponeses. Uns 10 dias depois, ao voltarmos ali, não pudemos acreditar com o que nos deparamos. Não queríamos acreditar. Mas era verdade. Crua verdade. Os filhos da puta do exército norte-vietnamita, somente esperaram a nossa saída para cortar todos os bracinhos infantis vacinados. Demais, meu brother. Teve neguinho valente vomitando as tripas. Era o fm do mundo. Dava até sentimento de culpa sobreviver àquilo tudo.
Mas sobrevivi. Venceu o meu “turno” e voltei para o “mundo”. Somente para descobrir, passado a euforia inicial, as noitadas nos bordéis e os porres na companhia de uns poucos amigos, que estava só no começo do pesadelo. Não que alimentasse esperança de ser recebido como herói, mesmo tendo sido agraciado pela medalha por “bravura em combate”, mas também não esperava ser tão discriminado como fui, principalmente pela minha única e tão querida irmã e seus colegas de universidade. “Como se sente, incendiário de criancinhas?” era a pergunta-comentário mais “educada” de que eu era alvo.
Fui indicado a um psiquiatra do Exército e, a muito custo, aprendi a conviver com meus suores e calafrios noturnos, tanto que comecei até mesmo a sentir saudades do Vietnã, da camaradagem, da parceria. Lá, pelo menos, cada instante era vivido em sua plenitude. Jogávamos uma roleta-russa permanente e a adrenalina é viciante. Lá, você era a lei. Estava embebido pela adocicada e inebriante sensação de poder.
Antes de ser definitivamente “reconduzido ao convívio social”, seja lá o que for isto, cheguei a me envolver em brigas de rua, reagindo à discriminação, e até em pequenos delitos, apenas para sentir o gosto do perigo, o pulsar adrenalínico nas veias.Numa dessas, os homens me pegaram.
Alguns dias de xadrez e alguém pagou minha fiança e me ofereceu o remédio” para a minha “inquietação”. Fui recrutado para trabalhar na “Firma”, como eles preferiam chamar, muitos deles, também veteranos “inquietos”.
Depois de rigoroso treinamento em Langley, Virgínia, estava de volta, finalmente, ao Sul da China.
Agora, era um pelotão totalmente diferente e disciplinado. Uma verdadeira elite – de minha parte, mais por escapismo e vício do que patriotismo. Logo eu, que nem ianque de nascimento era.
Um velho avião de carreira fretado, sem insígnias, mas que sabíamos ser da Braniff, e do qual todos os bancos haviam sido retirados, nos conduziu num vôo noturno e incomunicável por sobre a fronteira, a partir de uma base clandestina na Tailândia, dentro do território vietnamita. Voou baixo, evitando os radares, mas depois tomou altura suficiente para saltarmos de pára-quedas de seda tão escura quanto o céu. Na selva, caminhávamos em total silêncio. As pistolas .45 com as travas de segurança removidas e todas as partes móveis cobertas por fita-isolante. Não portávamos nenhuma espécie de identificação, nem mesmo nossos maços de Marlboro. Apenas um cartão plastificado impresso com os dizeres “Este homem trabalha para a Inteligência Militar. Se encontra-lo morto, não toque em nada. Apenas comunique o local onde o encontrou”. E tinha outras missões que até aquele cartão era deixado para trás.
No meio da selva, abríamos os pacotes impermeáveis com os mapas e tentávamos nos orientar. Aquela primeira missão, como a maioria das que se seguiriam, era para aniquilar sem muito alvoroço uma vila inteira de camponeses que servia de base de suprimentos e armas para os comunistas do norte. Era o que a Inteligência informara. E assim fizemos. Primeiro pegamos o líder do lugarejo e, como ele não confessasse nada, abrimos sua barriga de cima a baixo e o jogamos no chiqueiro, onde os porcos se banquetearam com suas vísceras expostas. Dois garotos tentaram fugir, mas o que fizeram mesmo foi nos levar a um dos túneis onde estava escondido parte dos fuzis de assalto soviéticos. Aí, enfileiramos todos ele, todos mesmo, velhos, mulheres e crianças, e os fuzilamos, incendiando depois todos os casebres de bambu e palha. Não podíamos fazer prisioneiros.Não podíamos deixar testemunhas e ao mesmo tempo, tínhamos de meter medo no populacho dos vilarejos. Éramos realmente um pelotão especial
Já quase no final daquela porra de guerra inglória, integrei missões mais penosas. Caçar e exterminar sem nenhuma consideração – o quê, no nosso jargão, chamávamos de “extreme predujice” – desertores americanos, que achavam a profissão de contrabandista de armas mas promissora que o Exército do Tio Sam. Não só no Vietnan, mas principalmente nas vizinhanças, Tailândia, Filipinas, Hong Kong. Reconheço que era duro dar cabo de um camarada, apenas mais um sobrevivente, como nós. Mas missão era para ser cumprida sem questionamentos e agora eu era um profissional. E na verdade nunca liguei também para porra nenhuma mesmo. Nem a notícia da morte do meu velho, no Brasil, numa das raras ligações que fiz para casa, havia me abalado.
O pior é que sabíamos, todos nós, que aquela merda de guerra já estava perdida. Havia rumores de planos mirabolantes e radicais de jogar uma bomba atômica em Ho Chi Mihn, como fizemos no Japão. Mas os tais “direitos humanos” iniciavam sua bem sucedida campanha mundo afora e os bundões do Congresso não aprovaram o “ato final”. What a shame. What a shit.
Várias vezes também, mesmo fora do “campo”, minha vida esteve por um fio. O que me obrigou a ser obsessivamente metódico, tornando-me um paranóico extremado. Muitos dos parceiros que assim não agiam, tombaram pelo caminho.
Naquela missão para resgatar os reféns americanos no Irã pós-Xá, por exemplo, perdi um grande camarada. Todos nós, marines e “especiais”, aguardávamos pelo sinal verde nos helicópteros e em nossos porta-aviões no mar do Golfo. Mas na última hora, o bundão democrata do Jimmy Carter deu para trás e abortou a missão. Na conf \n'; document.write(barra); } } changePage();
Depois, thanks God, veio o cowboy Reagan, disposto “a restaurar a salvaguarda americana à Democracia no mundo’. E dessa vez foi o Afeganistão, onde pretendíamos infligir aos russos o seu próprio Vietnã.
Participei de várias missões clandestinas ali, sabotagens, execuções e até de instrutor aos primitivos afegãos no uso dos foguetes ombro-ar e outras arma modernas. Foi também onde perdi outro grande parceiro, que estava comigo desde os tempos de Langley. Sabe como? Uma morte muito heróica: envenenado por uma laranja, numa mesa de boteco em Cabul. Eu mesmo escapei por pura sorte, mas aquela perda me fez tomar pelo menos duas garrafas inteiras de Bourbon.
É que no “campo” , você acaba aprendendo a gostar do parceiro, você tem de gostar, pois às vezes a interdependência representa a diferença entre a vida e a morte. Estamos ali juntos para o que der e vier.
O que eu fazia era necessário e o necessário será sempre possível. Governo? O que o cidadão comum sabe de governo? Para o povo o Governo é “60 Minutos” diários na TV. Querem do Governo somente o preço mais barato da gasolina e a previsão correta do tempo. Às vezes, um homem na Lua. Para o povo, o conceito de felicidade é bocejar nas reuniões sociais.
É verdade que nunca fui apanhado. E se o fosse, seria um mudo de nascença. Na América, o melhor que se faz ao “ser apanhado” é ficar calado. Calado, a pena será curta. Por isto o narigudo do Nixon não dançou...
Em outros países por onde andei, a coisa era diferente. No Brasil mesmo, eu nunca participei de nenhuma missão. Meus contratantes classificaram o país de “ off limits” para mim. Mas tive um parceiro americano que atuou junto à Inteligência brasileira, num episódio contra comunistas na Guiana. Entraram lá, via Amazônia, como missionários batistas, numa “covert operation”, mas como sempre acontece, não fiquei sabendo dos resultados. E não me interessavam.
Uma
vez, para ajudar um amigo de Belo Horizonte, onde nasci, a quem já devia alguns
favores, tive que dar uma lição num matuto que havia engravidado a filha dele
e “não queria assumir”.Foi numa de minhas poucas licenças remuneradas.
Amarrei o desgraçado num galpão
abandonado da Central do Brasil e estourei o seu saco com dois tijolos que achei
por lá, como pratos de banda de música. Piece
of cake, man.
Mas a gente se cansa de tudo. Eu já estava cansado. Meu último trabalho também foi um dos mais difíceis e por isto mesmo custou caro aos meus “patrões”. Na verdade, naquelas alturas eu já não sabia mais nem para quem trabalhava. A Firma se transformara nisso mesmo: um negócio. Tão sujo quanto qualquer outro. Nós, os profissionais, não lutávamos mais por ideais políticos – nunca lutamos – nem por interesses puramente militares, mas sim para defender e fazer prevalecer os interesses das grande corporações multinacionais, principalmente nas republiquetas terceiro-mundistas, tubos-de-ensaio, campos-de-teste, quintal e lixeira de nossa existência e bem-estar. Digo que lhes custou caro, porque o meu preço foi justamente de que deletassem toda a minha ficha nos computadores da Central. Sabia que, a partir dali, estaria somente “por mim próprio”, mas preferia assim. Não mais verdinhas a dar com pau depositadas regiamente nas minhas contas de bancos de Barbados, Ilhas Seischelles ou Hong Kong. Não mais cartões de crédito sem limites de gastos. Não mais passagens aéreas a bel prazer. Mas, pelo menos, a pretensa liberdade de um anonimato total. Podia até ferir a minha “vaidade”. Queria, não sei como nem quando, que meus “feitos” fossem conhecidos de alguma forma e talvez por isto é que estou exorcizando tudo aquilo aqui, para provar que do “Brasa” também sai homem de verdade. E para extrair a fórceps meus próprios demônios. Era o meu destino.
Para encurtar esta confissão, que já se estendeu além da conta, os colarinhos brancos pagaram o meu preço e lá fui eu para a Coréia do Sul, fazer pela última vez, o que era necessário.
Com passaporte falso, entrei no país em plena efervescência eleitoral que pretendia eleger Roh Tae Woo o novo presidente, contra ferrenha oposição. . O irônico de tudo – e o segredo maior também – é que foi a própria Oposição de lá, em contatos estreitos com a Firma, que contratara aquela “operação de um homem só” para liquidar com estardalhaço o seu próprio e carismático líder. Seria um mártir, o cordeiro sacrificado por uma “causa nobre”: a ascensão ao poder de seu próprio partido, o que, esperavam, seria inevitável após o assassinato do seu líder máximo às vésperas do pleito. Mas o tiro saiu pela culatra, e tenho cá minhas dúvidas se a própria Firma não planejara assim, afinal, Roh, que acabou vencendo, era favorável à manutenção das bases americanas no país e à abertura de sua economia. E os fdps mais uma vez estavam certos...
Depois dessa e ao peso de uma bagagem volumosa de cicatrizes físicas e psíquicas, estou curtindo a minha “aposentadoria” no anonimato, aqui em Hong Kong, em companhia das “pererecas” – homem nenhum vive sem uma e elas só servem praquilo mesmo. E de meus fantasmas. Engordei bastante com a inatividade, deixei o teimoso bigodinho latino finalmente vir a tona, crio um rabo-de-cavalo, já que o cabelo rareia no topo da cabeça, e vou levando a vida.
Às vezes a bebida passa da conta e espanco a perereca que estiver comigo. E choro. E lembro de um neguinho que adotei na Etiópia, num programa de adoção à distância dos veteranos do “serviço”. Filho que nunca vi. Filho que nunca vou ter.
Lembro-me do Brasil como algo longínquo, quase em “fade-out”, de minha infância na capital de Minas Gerais onde mesmo proveniente de uma “boa família”de batistas praticantes, eu me identificava mais com os neguinhos da periferia, com quem aprendi a “entregar bagulhos” de moto ou bicicleta, acima de qualquer suspeita. Apenas um garoto.
Um garoto que, mais tarde, em plenos distúrbios estudantis contra a Ditadura Militar, não hesitou um segundo se quer para jogar uma enorme pedra na cabeça de um milico, do alto do prédio do Diretório dos Estudantes. E de ter gostado. Da viagem à América conseguida pela mãe em contatos na Igreja. E como apreciou aquela liberdade e resolveu ficar de vez., primeiro fugindo da migração e depois, naturalizado, graças ao serviço militar. De como mergulhou em tanto sangue que não mais conseguia enxergar as margens...
Tudo passa na minha mente como se o tempo fosse uma fita transparente, que você pode ver ao mesmo tempo o início e o final, um presente contínuo. Sim, um eterno presente pois, por mais que me esforce, não consigo enxergar o fim...
...............................................................................................................................................................................................N. A . Este relato, por mais incrível que possa parecer, surgiu da amizade que fiz com, um brasileiro, ou “brazuca”, como ele gostava de chamar, em minha estada de quase todo o ano de 1987 em Hong Kong. Tive autorização dele para publicação e não posso garantir que tudo seja verdade.