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FRAGMENTOS DE MEMÓRIA
José Carlos Neves
Higel completa 15 anos esta semana. Ela está chegando à adolescência de uma maneira imprevisível para mim. Assistir sua jornada pelos anos, desde à infância, me absorve tanto quanto ver ao THX-1133 tocar violino em seus concertos dominicais na holotevê. Há a mesma arrogância casual, o sentido implícito de que ninguém faz aquilo melhor. E, para mim, chega a ser quase doloroso ver a gelsinha crescer.
Em cada soprar de velinhas ela ironicamente se parece mais conosco, os adultos, e nós só podemos nos apegar à memória, à lembrança do bebê e da criança. Eu lembro-me da primeira vez que a vi na enfermaria da maternidade. Já passava da “hora de visitas” e eu e a minha esposa estávamos encostados no plexiglass a prova de som do berçário, perscrutando todos aqueles bebês – alguns ligados à máquinas estranhas – e tentando adivinhar qual seria o nosso. Uma enfermeira surgiu por uma porta deslizante aos fundos, ainda portando uma máscara cirúrgica, carregando nos braços um bebê de cabelos negros e rebeldes, amarrados com um laço de fita colorida. Ele, ou melhor, ela, tinha somente 16 horas de vida e sua face, mesmo assim, já estava corada, suave e de aparência mais desenvolvida.
Notamos a etiqueta digital de identificação presa por um barbante elástico ao seu pulso direito, que não portava nenhum nome, claro! Somente a inscrição, em letrinhas verdes acesas: NI-QQI, ou “Nenhuma Informação – Qualquer Um “. O código usado pelas maternidades para as crianças abandonadas que poderiam ser adotadas por “ qualquer um “.
Higel foi adotada por nós, um casal de andróides.